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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

TOMMY - PARTE 2 - POR LUIZ DOMINGUES


Tommy, Parte 2

Falando sobre o filme em si, foram muitas as cenas impactantes com inúmeros significados implícitos.

A cena da mãe de Tommy num delírio hedonista, foi uma referência ao próprio The Who. Com um mar de feijões saindo de um aparelho de TV, ela se lambuza lânguidamente, evocando o LP The Who Sells Out, de 1967, onde Roger Daltrey aparece na capa, dentro de uma banheira, mergulhado em feijões.

Noutra cena, onde a mãe de Tommy, Nora Walker ( interpretada por Ann Margret), quebra o espelho, a atriz norte-americana se cortou de verdade. A filmagem foi interrompida e Ann levada às pressas para um hospital, onde levou 27 pontos nas mãos.

Roger Daltrey quase afogou-se na cena em que mergulha no mar, após a quebra do espelho. Uma equipe de mergulhadores contratados para a segurança do ator/cantor, teve trabalho para resgatá-lo.

Na cena de incêndio no cais, realmente o fogo alastrou-se e Ken Russell teve problemas com as autoridades em Southsea. E Roger Daltrey sofreu queimaduras reais.

Ann-Margret foi indicada ao Oscar de 1976 por esse trabalho. Jack Nicholson faz um pequeno papel, como um psiquiatra que tenta curar Tommy. Nessa sequência o método de cura usado, lembrou o "tratamento Ludovico" que foi usado por Stanley Kubrick, em "A Laranja Mecânica".

Oliver Reed, interpretou o padrastro (Frank Hobbs), além de Robert Power, também inglês, que fêz o pai de Tommy, Capitão Walker. Ambos tiveram suas carreiras iniciadas na lendária produtora britânica de filmes de terror e ficção científica, Hammer. Oliver Reed já era consagrado e Power ficaria bem famoso logo a seguir (em 1977), por viver o personagem Jesus Cristo, no filme de Franco Zeffirelli, uma das melhores versões da Paixão de Cristo, de todos os tempos.

A filha de Ken Russell, Victoria Russell, interpretou a ninfeta "Sally Simpson". O próprio Ken Russell aparece numa cena onde diversos paraplégicos pedem ajuda ao Tommy transformado em Guru. É rápido e ele está numa cadeira de rodas e usando um tapa-olho.

Paul Nicholas, outro ator britânico que despontava nos anos setenta, fez o primo sádico, Kevin. No filme posterior de Ken Russell, Lisztomania, ele interpretaria o compositor alemão, Richard Wagner.

Aliás, fanático por música erudita, Russell introduziu rápidas referências dessa vertente. Trechos subliminares de obras de Mahler, Delius e Bartok, são sutilmente introduzidos ao longo da película.

Além de Roger Daltrey, vocalista do The Who, interpretar Tommy, todos os membros do The Who aparecem. PeteTownshend e John Entwistle surgem em cenas tocando, mas Keith Moon é destaque, fazendo o tio sádico, Ernie. Personalidade das mais loucas na vida real, Moon não teve trabalho para compôr o personagem, mesmo não tendo cacoete de ator.

Outras estrelas do Rock aparecem e brilham. Eric Clapton toca no ritual da Igreja da Deusa Marilyn Monroe, onde o sacerdote é Arthur Brown, um dos artistas mais criativos do Rock Britânico do final dos anos sessenta. Elton John protagoniza uma das cenas mais sensacionais, quando canta Pinball Wizard e disputa com Tommy o posto de melhor jogador daquela máquina.

E Tina Turner dá um show de vocalização Soul, fora a sensualidade quase ameaçadora que imprime à personagem da "Rainha do Ácido".

O filme foi um sucesso retumbante de público. Rockers do mundo todo que idolatravam esse disco do The Who, o esperaram ansiosamente nos cinemas. A crítica se dividiu. Alguns gostaram e outros torceram o nariz para as cenas exageradamente alegóricas, chamando Ken Russell de histriônico.

De fato, trata-se de uma colagem lisérgica, praticamente um delírio. Contudo, era absolutamente proposital e querer outra resolução, seria inadequado diante da profusão de imagens provocadas pela música do The Who. Nesse caso, o exagêro se fazia mister e contrariando o dito popular, "mais era mais", necessáriamente

No Brasil, o filme estreou em março de 1976. Meu primeiro contato com a produção houvera sido ainda em 1975, quando li uma reportagem na Revista Pop, cobrindo bastidores das filmagens (aliás, essa era uma prática salutar da revista, que fez isso com vários filmes interessantes dos anos setenta, ainda em fase de produção, despertando a curiosidade dos leitores).

Em janeiro de 1976, a propaganda oficial da estréia brasileira estava estampada na contracapa da Revista "Rock, a História e a Glória" e daí, iniciei contagem regressiva para o grande dia.

Fui com amigos assistir pela primeira vez no primeiro sábado de exibição, no Cine Gazeta da Av. Paulista, aqui em São Paulo. Extasiados pela profusão de imagens lisérgicas e emolduradas pela música maravilhosa do The Who, ficamos ali por três sessões seguidas. Saímos entorpecidos pela experiência proposta por Ken Russell e na esquina da Av. Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima, havia um "Flipperama" (para quem conhece São Paulo, hoje em dia ali funciona um café), com dúzias de máquinas de Pinball. Compramos fichas e cegos , surdos e mudos, jogamos...

Eu não encontrei a mesma iluminação do Tommy jogando e parei na primeira ficha perdida. Mas o impacto do filme...até hoje emociona-me a saga do garoto cego, surdo e mudo que encontra a sua verdade dentro de si.
Luiz Domingues é músico da banda Kim Kelh e os Kurandeiros, em São Paulo.

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