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sábado, 27 de agosto de 2011

STILL CRAZY - UMA CHAMA IMORTAL......

Por Luiz Domingues, músico, baixista da Banda Kim Kehl e os Kurandeiros
Imagine uma banda de Rock setentista com qualidade técnica, talento e num bom momento na carreira, no auge da década de 1970. Imagine que esteja a um ponto de deslanchar na carreira e mesmo tendo problemas internos, perde o bonde da história por um acidente metereológico... 
Essa é a história da banda fictícia "Strange Fruit", retratada no ótimo longa-metragem "Still Crazy", batizado de "Ainda Muito Loucos", na versão brasileira.
 
O filme começa com o Strange Fruit tocando em 1977 no Wisbech Rock Festival no Reino Unido. No momento em que vão iniciar sua apresentação, um raio atinge o palco e queima todo o equipamento. Furiosos, saem do palco e a banda encerra atividades.
 
Corte brusco e agora vinte anos depois, o tecladista do Strange Fruit ( Tony Costello, interpretado por Stephen Rea ), vende preservativos em lojas de conveniência. É reconhecido fortuitamente por um dos organizadores do lendário festival onde o Strange Fruit viveu seu infortúnio e ele lhe diz que vai acontecer uma nova edição do festival e gostaria que o Strange Fruit participasse novamente.
 
Essa proposta acende uma luz na cabeça do veterano tecladista e daí, passa a rastrear os antigos companheiros para promover uma reunião da banda.
 
O baixista Les Wickers (Interpretado por Jimmy Nail), agora é um pai de família e trabalha como carpinteiro. Em princípio, resiste à ideia de voltar, mas logo percebe que poderia ser a chance de um resgate. É bonita a cena dele pensativo, abrindo o case de seu baixo, que não toca há muitos anos.
 
Logo aparece a figura de Karen (Interpretada por Juliete Aubrey), ex-namorada de Brian, o guitarrista da banda que era irmão de Keith Lovell, o primeiro vocalista que morrera por excesso com as drogas ainda nos anos setenta. Agora, trabalhando como gerente de um grande hotel, percebe a oportunidade e se insere no contexto como produtora dessa nova fase da banda.
 
O próximo a ser encontrado, é o baterista Beano Baggot (Interpretado por Timothy Spall, muito conhecido por suas participações nos filmes de Harry Potter). Ele agora cuida de uma pequena propriedade rural, mas vive atormentado, pois deve uma fortuna ao fisco britânico e teme a presença de uma estranha mulher que julga ser fiscal do governo. Não pensa duas vezes para largar suas ferramentas rurais e voltar às baquetas do Strange Fruit.
 
E o vocalista Ray Simms (Interpretado por Bill Nighy, famoso por ser o vampiro líder da trilogia : "Underground" ), vive do aluguel de sua mansão para festas particulares, ainda tentando viver como um Rock Star e dizendo estar gravando um disco solo, que na verdade não passa de uma mentira.
 
Como não conseguem encontrar o guitarrista Brian Lovell, pois descobrem que ele se mudou para os Estados Unidos e doou todos os seus bens para a caridade, presumem que também esteja morto.
 
O último elemento a surgir é o ex-Roadie, Hughie (Interpretado pelo ator/comediante e músico Billy Connoly ), que se torna um faz tudo na volta do Strange Fruit, como roadie, road manager e técnico de som.
 
Com a ausência do mítico guitarrista Brian Lovell, o vocalista Ray Simms assume a guitarra, mas logo no primeiro ensaio, percebem que ele está enferrujado. Resolvem então, colocar um músico jovem para suprir a vaga e após vários testes hilários com aspirantes, contratam Lucas Shand (Interpretado por Hans Matheson).
 
Daí, sucedem-se cenas tragicômicas da volta do Strange Fruit. O choque de ter que começar do zero para preparar a banda para o festival, talvez seja a melhor parte do filme. Tocam em espeluncas vazias; são maltratados por tribos modernas que os rejeitam como veteranos setentistas; são desdenhados por bandas "hypadas" e horrorosas de estética "moderna"; explodem ressentimentos antigos entre os membros etc.
 
Mas também vão acumulando pequenas vitórias, que como membros de uma boa banda setentista que são, acabam interpretando como "sinais" místicos que os levam para frente.
 
Fãs jovens que nem eram nascidos nos anos setenta, vão aparecendo e animando os veteranos músicos. 
 
Numa virada da estória, descobrem que o antigo guitarrista Brian Lovell (Interpretado por Bruce Robinson ), não estava morto, mas recluso numa clínica de recuperação de viciados em drogas.

E no final, a banda toca enfim no grande festival para uma plateia imensa e o guitarrista Brian Lovell, aparece de surpresa para se reunir à banda.
 
O diretor Brian Gibson (Billion Dollar Bubble, Poltergeist II, Tina etc), soube explorar em diversos sketches alinhavados, um panorama divertido e comovente de uma banda veterana, lutando para vencer adversidades anacrônicas e sobretudo frustrações pessoais de homens de meia-idade, amargurados pelo fracasso pregresso.
 
Além desse contraponto entre o drama e a comédia, tem cenas belíssimas plásticamente, também. Uma lembrança da banda ainda jovem, como se fosse um promo da época, remete ao Pink Floyd da fase Syd Barrett. É linda a atmosfera psicodélica nela contida. 
 
Uma cena tragicômica é a do vocalista do Strange Fruit, deprimido por estar completando 50 anos de idade e após se drogar, sair andando a esmo numa rua sob o frio de inverno e nem perceber que com suas pesadas botas de plataforma, furou o gelo de um lago e quase morre afogado... 
 
Por ocasião do lançamento do filme em 1998, o ator Bill Nighy que interpretou o vocalista Ray Simms, chegou a declarar que se inspirou em David Coverdale para compôr o personagem.
                                       Kim Kehl e os Kurandeiros

E rumores não confirmados, deram conta de que a banda Strange Fruit era inspirada no Uriah Heep.
             
Ao longo do filme, várias referências Rockers são evocadas. Membros do Strange Fruit citam bandas setentistas com quem teriam tocado.
A trilha sonora é muito boa e o som do Strange Fruit se situa entre o psicodélico quase prog (Procol Harum, The Move ) e o Hard-Rock bem melódico do Uriah Heep, Lucifer's Friend, Bad Company etc.
Boa produção, ambientação de shows, fotografia, direção de arte, figurinos e muito bom elenco de atores da boa safra britânica dos anos noventa.

É um filme para rir, mas também para se emocionar. E serve para pensar nessa bobagem que certos jornalistas e críticos insistem em fomentar sobre o caráter "datado" deste ou daquele artista. Música é atemporal e só um quesito importa para lhe conceder a imortalidade : Se sua obra, lhe toca o coração !