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sexta-feira, 22 de julho de 2011

........" THE ROSE " .....JANIS JOPLIN...******


No final dos anos setenta, o ambiente não era nada propício para se realçar valores sessentistas. A Disco Music comandava as ações do lado de cá do Atlântico, convidando a juventude a se domesticar, cortar o cabelo e dançar, dançar e dançar, abrindo caminho para a geração yuppie que estava brotando. Do outro lado do Atlântico, o Punk-Rock propunha uma bomba atômica niilista arrasadora para varrer do mapa os valores da década de sessenta e seu prolongamento lógico no decorrer dos primeiros anos da década seguinte.

Nesse ambiente desfavorável, foi lançado "Hair" em 1979 (Escrevi sobre "Hair" no blog do Juma anteriormente, basta procurar no arquivo do blog para ler), diluindo o impacto da peça de mais de dez anos antes e no mesmo ano, outra produção anacrônica foi preparada para chegar às telas em 1980, chamada "The Rose".

A ideia original seria uma cinebiografia da cantora Janis Joplin. Tanto é verdade, que o título original sugerido seria : "Pearl", apelido emblemático da genial cantora texana.

Mas a família de Janis Joplin vetou a ideia e temendo o inevitável processo dos pais e irmã dela, os produtores optaram por estabelecer modificações no roteiro e deixar tudo velado.

Dessa forma, "The Rose" retratava a vida de uma Rock Star, lidando com sua rotina de sucesso, compromissos e excessos extra-palco, valorizando a trilogia sexo, drogas e Rock'n Roll.

O filme acompanha os últimos momentos da vida de "The Rose". Seus shows lotados de fãs apaixonados e sobretudo a pressão gananciosa de seu empresário que faz vistas grossas à necessidade dela de desacelerar o rítmo, pois estava nítidamente esgotada física e emocionalmente, portanto à beira de um colapso nervoso.

Nesse momento, conhece por acaso um ex-combatente do Vietnã e passa a carregá-lo para dentro da turnê, exibindo-o como seu amante, mais para irritar seu empresário, que fareja problemas nessa atitude. Só que o cara tem uma índole boa e percebe que a cantora está à beira de uma crise nervosa séria, com risco de vida inclusive e passa a cuidar dela com carinho.

E é nesse ponto que as semelhanças com a vida de Janis Joplin se acentuam. Essa carência afetiva absurda que sente por não ter tido respaldo da família; baixa auto-estima por se sentir feia e ridicularizada no ambiente escolar; sentir-se sugada pela fama, se afundando nas drogas e bebida para suportar essa pressão etc etc.
Retratando a personagem dessa forma, ficava claro ao público que se tratava de Janis Joplin, mas não havia como a família se queixar na justiça, pois era outro nome e uma suposta personagem, meramente fictícia.
Com essa ação velada, os produtores driblaram a família de Janis Joplin e puderam contar sua estória, ainda que com muitas licenças poéticas e modificações.

No tocante ao filme em si, aonde era quase indisfarçavel a semelhança com a vida real de Janis Joplin, ficou por conta da cena inicial que na verdade é um flashforward do final, com uma balada melancólica (e linda) ao fundo, enquanto o pai de "The Rose" abre a garagem da sua residência para mostrar que apesar da mágoa da filha em não ter seu apoio explícito, ele a acompanhava e se orgulhava dela, tamanha a quantidade de recortes de matérias de jornais e revistas que ornavam as paredes...Exatamente como no documentário "Janis", onde sob o som de "Me and Bob Mcgee", o público mareja os olhos vendo as fotos de Janis Joplin.

Outra passagem semelhante à vida de Janis Joplin se dá no concerto onde "The Rose" se apresentará em sua pequena cidade natal. Não foi bem assim no caso de Janis Joplin, mas ela na vida real fez questão de comparecer à uma convenção de ex-alunos de sua High-School de Port Arthur, já muito famosa, para buscar sua espécie de auto-afirmação em confronto com os traumas do passado. No filme, ela faz o concerto no estádio de futebol americano da sua escola e em péssimas condições de saúde, tem um colapso e morre no palco.

O filme tem cenas muito interessantes. As de shows ao vivo , são muito boas e o grande mérito do diretor Mark Rydell foi ter contratado uma atriz que realmente era cantora de carreira, também. Bette Midler não interpreta uma cantora de Rock, mas a encarna com total desenvoltura. Dona de excelente presença de palco e uma voz privilegiada, canta e convence como "The Rose".
Se a sua carreira musical não atingia o público rocker anteriormente, após o filme, despertou o interesse, mas ela nunca esboçou vontade de mudar o seu direcionamento musical e continuou no seu espectro de público mais conservador, brigando no mercado com concorrentes como Barbra Streisand, por exemplo. E no cinema, infelizmente nunca repetiu o mesmo sucesso, mais se dedicando a comédias, assim como na TV, com participações em sitcoms.

A banda de "The Rose" no filme, também era formada por músicos reais e o destaque fica para o guitarrista Steve Hunter. Ex-guitarrista do Frost, banda que abria os shows do Grand Funk entre 1970/1971, tocou na banda de apoio de Lou Reed, posteriomente. E em 1975, ao lado do outro guitarrista do Frost, Dick Wagner, foi acompanhar Alice Cooper, que acabara de dissolver sua banda clássica, para renovado, lançar o LP "Welcome to my Nightmare" desse mesmo ano.
Com Hunter no comando, o diretor Mark Rydell teve a acessoria necessária para retratar uma banda de rock de forma muito fidedigna.
Responsável pelos arranjos e direção musical, Hunter brilha no filme com seus solos cheios de influência do Hard-Rock típico de Detroit.

Músicas como "Whose side are you on", Midnight im Memphis", "Sold my soul to Rock'n Roll" , "Stay with me" "Let me call you Sweetheart" e "The Rose", entre outras, valem cada segundo do filme. E destaco também o tema instrumental "Camellia", um riff composto por Steve Hunter e de uma beleza incrível. Com esse tema, "The Rose" chega ao palco de helicóptero no seu último concerto. Impossível não se emocionar.

O filme teve várias indicações ao Oscar, mas acabou não faturando nada. Venceu outros prêmios como o Globo de Ouro, Bafta e Cesar.
Bette Midler como atriz, Frederic Forrest como ator coadjuvante (Fazendo o amante fortuito, Houston Dyer), melhor trilha, montagem etc.
 
Ainda destaco no elenco, o bom ator britânico Alan Bates, fazendo o empresário explorador, Rudge Campbell e Harry Dean Scanton, fazendo o compositor country, Billy Ray, que protagoniza uma das mais fortes cenas do filme, humilhando "The Rose", o que a derruba emocionalmente ainda mais.
                                                                                                          

Bem recebido pela crítica, que bateu na tecla de ser a biografia velada de Janis Joplin, o fime teve boa bilheteria inclusive no Brasil, apesar de ser uma época desfavorável para esse enfoque.
                                                                  
Vale rever e para quem ainda não viu, deixo a minha recomendação !
                                               
Luiz Domingues - Músico.