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terça-feira, 19 de julho de 2011

A ESCADA PARA O CÉU ...POR MYRNA MOON

  Ao olhar para minha história com o Rock, inevitavelmente sou transportada através do tempo e assisto em minha mente o filme dos muitos momentos da minha caminhada.
    A época era difícil, muitas coisas da velha ordem ainda assombravam a mentalidade da geração dos meus pais. Havia algo comigo que me poupou de eu saber o que era solidão. Minha imaginação me blindou da maldade; quando você não conhece a maldade, você não a reconhece. Hoje tenho uma visão muito clara da minha "aventura" de viver.
    Estávamos no meio da década de 70. Muitas coisas aconteciam, a ditadura militar pegava pesado, não podíamos ficar pela rua até tarde, por causa da policia e não havia a violência que vemos hoje. Não haviam crianças drogadas jogadas na rua , não havia traficantes, e o funk era uma black music da melhor qualidade, só para dar exemplos.
    O primeiro som rock and roll que ouvi foi Stairway To Heaven, que chegou aos meus ouvidos através de um pequenino rádio de pilha que ganhei do meu pai. Eu não entendia o que dizia aquela canção, não sabia nada de inglês. Mas de algum modo eu entendi e soube que precisava caminhar para encontrar algo que, intuitivamente, me chamava. O meu lugar no mundo.
    E caminhei, num tempo não havia video-clip, nem cd player, ou coisas do tipo. Tinha vinil e vitrola, mas nem todos tinham acesso., Ah, tinha posters, era o jeito de conhecer a imagem daqueles cabeludos, tocando suas guitarras acompanhando vocais maravilhosos e perfeitos. E eu tinha ouvir aquele som de novo...
    Atravessei o tempo, numa busca que desse sentido a minha existência e a trilha sonora era boa!
    Na estrada fui guiada  por um "anjo", quando, sonhei, amei, chorei, me perdi e me encontrei, ele sempre esteve por perto. Aprendi a ler o mundo, a enxergar as pessoas em sua essência. Conheci muitos lugares, fui a templos; ia do paraíso ao inferno, com uma alegria de viver inexplicável, tudo sempre com a mesma inocência e leveza que apenas uma criança poderia ter. Eu não tinha “pecados” suficientes para temer a nada.
    Amigos foram tantos que até perdi a conta. Muitos shows, muitas viagens, blues na praia com fogueira, cachoeiras e florestas, acampamentos e uma ideologia que me deu identidade. Ainda posso ouvir as palavras de ordem de jovens protestando, numa época em que  som, drogas, religião eram apenas "meios" e não um fim em si mesmo, capitalismo ainda não havia absorvido e transformado em mercadoria, como aconteceu alguns anos depois. Todos estavam em busca de algo melhor e maior.
    Os tempos eram outros e a porta entre os mundo se abria diante dos olhos dos buscadores.
    A vida, porém, não é estática, as coisas se transformam e  cheguou à idade adulta. Demorei muito a entender como vivem os adultos, (até hoje não sei bem ainda, rsrs) e tive e tenho sérios problemas por causa disso.
    Meu espírito livre se nega a conivência e ao consentimento próprio dos escravos. Meu Eu não aprendeu a viver de aparência, nunca aprendi a mentir com a maestria suficiente para ser totalmente aceita nas "famílias" perfeitas, não agüentei me submeter aos castigos impostos por gente hipócrita. Enfim, não fui absorvida pelo capitalismo e não consigo me lamentar!
    O que talvez fosse motivo de lamentação para muitos, para mim teve outro significado. Os moralistas que me julgaram e me condenaram a viver longe deles, sem saber, ao me abandonarem, me libertaram. Sem querer me deram opção, me chamando de louca, me pouparam de sua loucura. 
    Não sou mais a mesma, não tenho mais aquela inocência e meus sonhos hoje estão numa "oitava" acima.
    Estou tão alto que apenas os melhores riffs me alcançam, e no meu vôo tenho a sensação da eternidade, quando o êxtase é tão intenso que todas as coisas significativas aos mortais não passam de palavras sem nexo para minha alma. Tudo fica pequeno olhando daqui de cima.
    Num sonho descobri que meu "anjo" nada mais era que eu mesma, vindo do futuro para me conduzir de volta a minha origem. E vi esse "anjo" na capa de um disco, e soube que era ele que esteve sempre ao meu lado, enquanto eu subia a escada para o céu.

                                            





  Myrna Moon, Campinas,19/07/2011.